sábado, 18 de dezembro de 2010

Taça

A gente se combina assim: dando tapas e trocando beijos. Eu te odeio, te xingo, te mando ir embora. E você vai, cheio de ódio e rancor. Eu digo que vou embora e você diz: "Vai". Mas chora quando ouve o barulho do avião passar pelo telhado da sua casa.
Lembra de quando ouviamos Chico Buarque juntos, na grama e uma multidão ao redor? Era somente eu e você. Você odiava, mas ouvia, dizendo que ouvir Chico sem pensar em mim não é ouvir Chico.
No dia do teu aniversário, dei a camisa do teu filme predileto. 
No outro dia brigamos.

Você rasgou metade do meu rosto com aquela taça quebrada. Eu rasguei teu peito.


E mesmo assim, Antônio, ainda amo você. Absurdamente. Odiosamente.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A este ser que chegou e se apossou do meu tempo
Que hoje traz a agonia dos recém-apaixonados
A este coração que vive a beira do abismo

domingo, 14 de novembro de 2010

Bolso Laranja

Na tarde nublada, tantas pessoas e uma pedrinha entre elas.
Entrei no ônibus e ele veio atrás de mim, não deixando ninguém passar. Vestia uma calça laranja e uma blusa branca. Sujeito simples, não consegui distinguir aquele olhar, mas pelos cílios, imaginei-o doce. Entrei e ele sentou ao meu lado. Pus minha bolsa para perto. Ouvia música. Viajei em pensamentos, decisões que precisam ser tomadas e no meio da minha confusão, ele me despertou. Ia tirar algo do bolso e eu fiquei imaginando o que seria; ''um celular, algum canivete, algum papel rasbicado de tinta barata?''

E era um biscoito.

Um biscoito... a voz, como que adivinhando, tornou-se doce em meus ouvidos e sem perceber, olhei para o lado e soltei um sorriso discreto.
O menino virou-se. Tinha o olhar duro, sem expressão clara. Voltou a olhar a paisagem cinza desta cidade.
O ponto se aproximava.

Deixei o menino para trás. A pele negra, calma, que retirara toda a inocência e simplicidade do bolso laranja.
Aquele biscoito.