quarta-feira, 2 de junho de 2010

Rita

Rita tem um quadro na parede da sala
Todos os dias ela o olha,
recordando do dia em que ganhou
As fotos saem amareladas
Mas Rita não se importa
Ganhou uma máquina fotográfica
Chora e ri com ela
Rouba pessoas
Rouba as jóias que sempre quis
Rita tem tudo
Tudo dentro de sua máquina

Rita chega em casa
Tira o casaquinho da cor da pele
Acende uma vela
E começa a cantar com o quadro e a foto amarelada
Da sua sala.

domingo, 30 de maio de 2010

Carta

''Há muito não escrevo a ti. Não é com você o problema, talvez comigo. Por onde acha que devo começar? Hum, ja ouço sua voz gritando '' pelo começo''. É, seria lógico mesmo, mas hoje vou começar pelo meio. Não exatamente, mas o meio do dia 30.
Acordei e tudo pareceu pastel. A cor da parede do quarto movimentara-se de tal forma que me comprimia os ouvidos e eu só conseguia sentir o amarelo entrando violentamente pelas retinas, sem pedir licença, dar ''bom dia''. Acordei mas não abri os olhos e quis chorar. O que está acontecendo comigo? As cores não me conhecem mais, o amor não me conhece mais ou eu não os conheco mais? Sabe, Maria, pensei muito em escrever para você. Já a pertubei tanto naqueles dias de chuva, falando das peças de lego que perdi quando meu primeiro cachorro se soltou. Foi um reboliço só. Ou ainda alugar seu ouvido falando do primeiro livro que ganhei do Drummond. Ahhh Maria... você não imagina em que me meti de novo. Presa, como antes, você lembra?
Isso me angustia, você sabe do que estou falando. Sabe aquelas passagens? Ainda as tenho. Posso ir agora e soltar de vez as palavras retidas ou continuar aqui e guardar meus poemas na gaveta do armário. 
As xícaras faziam tanto barulho que me perdi nelas, entre as colheres, a mulher lavando panelas. Acordar assim é muito perturbador, Maria.
Vou para o interior com você, viver o antigo amor, cantar a noite, sozinha, para as gotas que caírem do céu e ser surpreendida por ele atrás de mim, me entendendo e completando minhas frases. Quero ainda, Maria, acordar de manhã com um bom dia, uma xícara de café e o silêncio mais tagarelo que possa ter vivenciado. Uma vida calada, intensa, repleta de cor, sinfônia, filmes, livros.

Com amor, J.''

"- O trem está passando.''
''-Oh, obrigada!''

Joana selou a carta com a última gota da cola. Levou sua xícara e saiu correndo pelas ruas neblinosas daquela tarde.

sábado, 29 de maio de 2010

Numa dessas tardes, o livro fechara-se lentamente, dando mordidas indolores nos dedos.
O céu permanecera grandioso mas pequeno no reflexo da bola prateada.
A sua frente, todas as ilusões do mundo.